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Frans Krajcberg, Nova Viçosa, Brasil. Foto de Tim Carroll, 1993

As obras de Frans Krajcberg atravessaram o século XX sem envelhecer. Sua mensagem é mais relevante do que nunca. Obra e mensagem estão tão intimamente ligadas que é difícil separá-las. A natureza é uma oficina ao ar livre onde ele tira sua inspiração. É também a justificativa para seu papel como artista.

Artista atípico : formado segundo os critérios da época na Belas Artes de Stuttgart, ele nunca deixou de se libertar de todas as correntes artísticas reconhecidas para se expressar de forma muito pessoal, com obras sem título e sem data, cuja força emocional permanece intacta.

 

Artista multiforme : ele utilizou todos os suportes (pintura, escultura, fotografia e até câmara…), misturando disciplinas clássicas ou contemporâneas sem constrangimentos.

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Artesão implacável : ele praticou todas as técnicas ao seu alcance e foi inspirado por todos os métodos tradicionais ou experimentais.

 

Pioneiro : ele se afirmou nas décadas de 1980/1990 como um dos pais do movimento Antropoceno que atribuiu ao homem um papel decisivo no equilíbrio planetário.

Artista-ativista: foi muito cedo e será até o fim da vida uma testemunha ativa que denuncia e alerta. Para ele, o Artista está “no coração de qualquer projeto de civilização, completa e radicalmente”.

Após a guerra, ele preferiu fugir para Ibiza e para o Brasil a se integrar aos círculos artísticos com os quais trabalhou. Ele desenvolve uma grande capacidade de observação e admiração diante da natureza e desde muito cedo o desejo de testemunhar e agir.

Frans Krajcberg, novembro de 2011.

Porque para ele Arte não é um fim em si mesmo, mas um meio de chegar, de passar uma mensagem, de partilhar a sua “revolta”. Ao longo de sua vida, “trabalha” as formas, buscando incessantemente novos modos de expressão para cumprir sua missão. Pegadas, colagens, sombras, madeira queimada, mas também fotografia são utilizadas para comunicar sem fronteiras. Ele confia às suas obras o papel de “gritar” por ele.

 

A convicção de ter encontrado na expressão artística um meio excepcional de defesa da natureza, ele adquiriu em Paris nos anos 1960. Enquanto a abstração e a pintura informal perdem o fôlego, as questões ambientais são convidadas, pela primeira vez, a debates políticos e sociais. Artistas como Joseph Beuys e Hans Haacke questionam o papel da arte neste período de turbulência. O homem civilizado criou um mundo invadido por objetos manufaturados, extraindo incansavelmente as riquezas da natureza. É hora de tomar consciência de sua vulnerabilidade.

 

No final da década de 1960, a Arte Povera, depois a Land Art na década de 1970, explorou novos caminhos e extraiu novas fontes de inspiração de objetos crus ou da paisagem. Mas quando a Arte Povera age com espírito provocativo para rejeitar a Op-art, Frans Krajcberg mantém a ideia de movimento. Para ele, os materiais que o inspiram não são “pobres”, pelo contrário! Sua beleza fala por si quando se trata de denunciar a destruição da natureza pelo homem. E, ao contrário da Land Art, ele não intervém na paisagem, ele escolhe elementos naturais que transforma para os engrandecer, ele desvia os códigos artísticos que utiliza.

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Frans Krajcberg, Raízes, tinta sobre papel, 1983, 54 x 76 cm.

Frans Krajcberg também difere dos Novos Realistas, movimento fundado por Pierre Restany durante esse período crucial. A princípio, o crítico e historiador de arte considera o processo de apropriação da natureza por Frans Krajcberg como uma abordagem semelhante. Os Novos Realistas trazem um novo olhar sobre objetos artificiais e manufaturados (criados para atender às necessidades da vida urbana) e, assim, revelam sua realidade poética. Essa é, então, segundo ele, a única saída possível para renovar a Arte Contemporânea.

 

Em 1978 os dois, junto com o pintor Sepp Baendereck, embarcam numa descida pelo Rio Negro.

Longe de tudo, no coração da Amazônia, eles se questionam longamente e comparam seus pontos de vista sobre o papel da Arte e do Artista em nossa sociedade. O jornal do Rio Negro relata essa jornada em direção ao que será o fundamento do Naturalismo Integral. Para ambos, a natureza estará agora no centro das questões culturais e artísticas.

 

“Essa natureza da Amazônia é tão poderosa que se impõe a mim como uma verdadeira disciplina. A Amazônia será a universidade, a Alam mater, a grande escola da minha percepção”, declara Pierre Restany. Frans Krajcberg, por sua vez, confirma a visão que se impôs a ele na sua chegada ao Brasil. Fragmentos da natureza são, eles próprios, obras de arte. O artista deve revelar sua beleza ao mundo para evitar sua destruição. Esta “verdade” se impõe a ele “como um lembrete à ordem moral de nossa cultura”. Elementos, árvores, homens, plantas ou animais, formam um todo inseparável.

 

“A natureza da Amazônia questiona minha sensibilidade de homem moderno. Ela também questiona a escala de valores estéticos e artísticos tradicionalmente reconhecidos. Aqui, estamos diante de um mundo de formas e vibrações, diante de um mistério em perpétuo movimento ...”

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Frans Krajcberg na Amazônia, no local de desmatamento.

Agora e até o fim de sua vida, Frans Krajcberg nos convida a olhar a Natureza como uma obra de arte. Fonte inesgotável de inspiração, ela lhe proporciona um encantamento permanente, que ele compartilha conosco. “Captar a mais ínfima parcela de sua fugacidade, mostrando-a em sua beleza crua ou em seu movimento de acordo com as horas do dia, olhar o sol, o vento e a água entrar em ressonância com ela ...” Fascinado primeiro pela infinita diversidade de cada peça de matéria-prima, opta por confiar às suas obras o papel de “gritar” por ele:

 

“As vezes eu caio no belo. Uma árvore atingida pelo fogo pode ser linda, mas se você examinar sua história, é trágica. Eu gostaria que minhas esculturas gritassem, mas como fazer isso? Às vezes, digo a mim mesmo que eles ficaram bonitas demais e que não choram mais. Às vezes, quanto mais violentas elas são, mais elas entram na estética, então posso pensar que a morte pode ser bela.”

 

Para ele, Natureza e Arte são inseparáveis.

 

“Sou um homem totalmente ligado à natureza, da qual depende a minha sobrevivência e a minha criatividade ... A natureza me deu força, me deu prazer de sentir, de pensar, de trabalhar. Para sobreviver. Eu caminhava na floresta e descobria um mundo desconhecido. Eu descobri a vida. Vida pura: ser, mudar, continuar, receber luz, calor, umidade. A verdadeira vida: quando estou na natureza, penso verdadeiramente, falo verdadeiramente, me pergunto verdadeiramente. Quando olho para ela, sinto como as coisas se movem: nascimento, morte, a continuação da vida. Eu tinha construído minha casa na floresta. Um gato selvagem me adotou. Eu colecionava orquídeas. Tive, com certeza, a maior coleção de orquídeas do Brasil.”

 

A segunda metade do século 20 deu-lhe tempo de forjar as ferramentas artísticas para levar sua mensagem e ecoar seu grito de revolta:

“Minha obra é uma longa e apaixonada luta com a natureza. Eu podia mostrar um fragmento dessa beleza. Foi o que fiz. Mas não posso repetir esse gesto indefinidamente. Como fazer meu este pedaço de madeira? Como expressar minha consciência disso? Onde está minha participação nesta vida que me inclui e me excede? Até agora, eu não dominei a natureza. Aprendi a trabalhar com ela.”

O início do século XXI permite que ele se expresse e grite com força, tendo como única arma a beleza evidente e o fascínio imediato de suas obras.

 

Incansavelmente, até sua morte em 2017, ele cria e faz ressoar sua mensagem de artista rebelde, contra a destruição da natureza, para preservar o planeta e passá-lo para as gerações futuras.